Perguntas e não-respostas

•05/04/2011 • Deixe um comentário

E se voltasse a escrever, o que eu escreveria? Uma pergunta? Uma resposta? Um enigma?

E se voltasse a ter meu ritmo? E se tivesse as palavras em minha boca ou em meus ouvidos? E se encontrasse o motivo ou nem precisasse de um? Escreveria por quê?

E se já não pensasse e apenas escrevesse? E se pudesse ouvir a voz do nada? E se me fosse possível escrever no vento? O que escreveria? Por que escreveria? A quem escreveria?

E se o silêncio fosse a resposta… o que seria a pergunta que não cala?

 

 

Um retorno ainda impossível

•25/03/2011 • Deixe um comentário

“É necessário estar sempre bêbado. Tudo está lá, eis a única questão. Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude. A escolha é vossa.”

É necessário redescobrir a poesia. O artista é mero artífice, é a ponte que une o visível ao invisível. O que ele pensa ou deixa de pensar é nada frente a tudo que desconhece. E quando quer fazer de si algo mais do que um canal, torna-se Narciso a olhar-se no lago. Perde-se em si mesmo e o que chama de poesia, é poeira que o vento suavemente irá soprar ao esquecimento. Que a poesia não seja entretenimento, nem inflame os egos, nem contenha intenção crítica… e que sua voz tenha a força das tempestades e a brandura de uma brisa, pois que a afetação é coisa que lhe é alheia.

É necessário invocar as Musas. É necessário ser digno delas e devotar os versos à sua inspiração. Seus cantos é que inspiraram Homero, e suas litanias deram forma a toda a poesia que é a expressão de uma Memória verdadeiramente humana. Já não lembramos quem somos, pois nossa ignorância é a treva que cega completamente nossos olhos pretenciosos. É necessário reconhecer nossa ignorância e não fechar os olhos como quem, por não ver, crê que nada há além de sua própria escuridão.

É necessário que a poesia, presente em todas as coisas, volte a ser cantada com a beleza de Vênus, com a força de Marte, com a Luminosidade de Apolo e a Sabedoria de Atena. É preciso beber de fontes perdidas e reencontrar o caminho do sublime. Eis o caminho capaz de elevar o homem ao lugar onde ele deve estar.

Há muito tempo que não escrevo

•03/11/2010 • 1 Comentário

Há tanto tempo que não escrevo.

 

Houve uma época em que minha única companhia, nas noites escuras e silenciosas da rua onde moro, era a música de Elliott – e as palavras que então rabiscava em meus anseios poéticos e catarses purificadoras. Esse tempo, tão fugaz como uma brisa primaveril, soçobrou nas ondas frias dos invernos de minha alma, que, impossibilitada de verter em líricas palavras as delícias do meu desassossego, conformou-se com o emudecimento.

 

O tempo urge. Há tempos que não escrevo e nem cogito escrever.

 

Depois de muitas idas e vindas, sempre no encalço de um verso adormecido no estio de meus dias (e com a grave pergunta de Rilke em meu peito – “Morrerias se não pudesse escrever?”), descobri-me indigno do encanto das musas. Silenciei meus versos, minhas mãos, meus anseios. Deixei morrer em mim a pretensão de ser o que se não pode ser – arranquei a ilusão ao peito com a mesma passividade com que a instalei aí. Logo esse silêncio gritou fundo em meu âmago, pois a morte é a condição primordial para que haja a vida – “para nascer, é preciso morrer primeiro”.

 

Mas há muito tempo não escrevo – e nem consigo escrever.

 

Meu silêncio ganhou ares de drama; e quanto mais calado, mais difícil sair da idiossincrasia – e tanto mais difícil me aproximar das palavras. Sim, isso tudo também é um pouco de respeito; não posso ser medíocre como os pretensos escritores dessa época, isso não me serve; aliás, atordoa-me. A feiúra é a anti-poesia – e o nosso tempo é o tempo da feiúra. Mas acontece que tenho sido um desses escritores de minha época! Como renegar minha filiação histórica? Como eu saberia que minhas palavras careciam de beleza? Ela me era estranha. Estava escondida e eu não a podia ver. Por Zeus! O que é feito de nós, homens e mulheres de intelecto, que desconhecem a beleza?

 

Há muito tempo que não escrevo e nem sei se é necessário escrever.

 

As palavras têm me faltado à boca e às mãos, mas a vida tem sido mais suave – e a afetação de meus textos sombrios e fantasmagóricos se desfaz continuamente. Eu, que era o amante da noite, do vinho e da música de Elliott, eu, que me embriagava com as poesias que sonhara escrever, como poderia me entregar a este ofício taciturno se me faltara a matéria prima de meus textos, se me faltava eu a mim mesmo! À míngua de meus esforços, nutri os vestígios de tudo que ainda guardava em algum canto de minha existência num último esforço de manter viva uma possível esperança – ou o que quer que seja. E vi, no fundo de mim, a falta de uma resposta, ou de uma pergunta. Vi que não poderia escrever. E o silêncio se fez.

O Fado

•29/06/2010 • Deixe um comentário

Busco o que desconheço.
Ando por todos os caminhos
que nunca foram pisados.

Num eterno recomeço de viagem,
viajo em mim mesmo
e guio meus passos observando a natureza.

Às vezes me perco nas brumas do acaso,
este que não existe senão no modo de dizer
e me faz esquecer aquele que serei.

Sigo o que sinto e o que sopram os ventos,
mas não vou porque tenho que ir,
vou porque é o fado que diz

“se ficares parado
serás apenas um pobre diabo
que nunca será feliz”.

Tudo que tenho comigo
é um fado infinito
que me leva sem me deixar cair.

O que sobrou

•16/03/2010 • Deixe um comentário

Agora é assim, do jeito que você disse que seria.
Os fatos estão claros, sabemos o que somos:
estranhos que se esqueceram de si mesmos,
falsamente envolvidos com os sentimentos que maldisseram,
fugindo das lembranças e de seu próprio medo.
Nossas palavras são armas que desconhecem o campo de batalha
e ferem mais do que seria suportável.
Caímos e não percebemos quão ridícula seria esta queda.

Sabemos que algumas dores doem pouco, mas o tempo todo…
mas não existe cura para todas as lembranças?

Venturosa, a deusa da memória, em sua sublime bondade,
é a única capaz de manter imaculada a fagulha verdadeira
que sempre existiu, existe e existirá entre o que somos para além do pó…

Ela guardará para o infinito apenas o que nos tocou por sua beleza…
e essas palavras desnecessárias fenecerão com o implacável sopro de Cronos.

E como a chuva que banha todas as ruas e as palavras,
seguiremos como nossas lembranças
que andam com o vento
sem um destino certo…

25 – A arte de recriar histórias (ou uma homenagem a Pablo Neruda)

•05/03/2010 • Deixe um comentário

O frio que se seguiu à aurora me lembrara Matilde. “Eis a manhã no coração do estio, cheia de tempestade”. Senti falta de sua boca abrasadora e dos seus olhos noturnos onde sempre naveguei. Senti a alegria da primeira vez que a vi e também daquela outra, em que a tive entre meus braços. Tudo me lembra Matilde, mas nesta manhã, “iguais a lenços brancos de adeus, passam as nuvens, e o vento a sacode com sua mão viajante”.

Quando me pediste para ires contigo, sem que o soubesse a noite ou as estrelas, repeti o mesmo pedido: “vem comigo”. Foi por esta época que vi o “inumerável coração do vento pulsando sobre nosso silêncio enamorado”. E morrendo de amor, atirei-me sobre a vida com a mesma fúria com que o vinho abrasa o seu cárcere cerrado. “Zumbindo sob as árvores, orquestral e divino qual uma língua cheia de guerras e de cantos”, estávamos nós, apenas. Eu vi em seus olhos a cor da lua, ó bem amada! Em ti eu via o florescer da vida de todos os seres. Juntos selamos o silêncio que nos acompanhou desde o início.

No “vento que leva em rápido roubo a folharada e que desvia as flechas palpitantes dos pássaros”, viajamos serenamente. E o teu riso era constante e o coração ardente. Sempre senti a fome de tua boca, de tua voz, de tua pele intacta de amêndoa e os teus passos marcados na areia “que a vai derrubando em onda sem espuma e substância sem peso e fogos inclinados”.

Escreveria a vida inteira somente para ti, mas seria pouco. Deixei-te, por isso, os meus versos mais sentidos e tudo que neles fui capaz de traduzir. Cem sonetos escritos para ti, minha doce Matilde. Mas nesta hora em que escrevo estas linhas derradeiras, o vento e as formas passageiras serão as únicas testemunhas de meu ocaso. “Lacera-se e naufraga seu volume de beijos batido junto à porta desse vento estival”.

24 – Enfim, Viver

•04/03/2010 • Deixe um comentário

Sinto-me remexendo o passado em busca de algo que parece ter ficado perdido em algum lugar, um lugar que possivelmente desconheço. Ainda há resquícios daqueles dias em que as coisas pareciam tão certas, tão simples, simplesmente alheias ao girar do mundo. Agora é como se eu estivesse tentando nascer para uma nova vida, mas algo me impossibilita de deixar tudo para trás. As conseqüências sempre são tão grandes quanto as ações que as originaram, por isso essa transição é difícil, intensa e perturbadora. Posicionar-me frente a estrada é virar as costas para muita coisa. Mas o pior de tudo é que nada disso, que fica para trás, tem algum valor afinal. É irônico como tudo isso pode ser. A comodidade é um monstro com cara de anjinho. Preciso, urgentemente, sentir a vida um pouco mais do que aquilo que os sentidos captam e relevar o que fui condicionado a aceitar como verdade. Olhar o mundo e a vida de uma forma menos cínica e mais infantil. Deixar de ser parte do vulgo. Viver, enfim.

23 – Sonho

•03/03/2010 • Deixe um comentário

Há muitos e muitos anos, num tempo antes do tempo, existiam seres que hoje já não existem mais, ou não estão mais visíveis aos olhos comuns, não se sabe ao certo. Às vezes, um ou outro ser aparece aqui e ali, mas ninguém acredita quando vê, pois desculpas para o inadimissível é que não faltam. Em suma, talvez o que vi foi a bruma de um sonho… ou, se assim é que for, tudo não deve passar desse sonho de acreditar-se acordado.

Os dragões são seres mágicos. Quem já viu um sabe muito bem disso. Eu o vi, mas de longe. Não estava pronto para sentir a poderosa presença desse ser que guarda o maior dos tesouros. O tesouro é segredo. Só desvendou o segredo aquele que o viu ou intui o que é. Eu não vi, mas minha intuição me diz algo com muita clareza. Não deve estar enganada. Mas é segredo.

Desperta o relógio. Mas eu uso relógio?

Acordo, ou começo a dormir, já não sei qual é o quê. Mas tem algo que eu não esqueço. Um dia eu encontro o dragão frente a frente. Espero que até lá eu já esteja preparado para esse momento.

E que os sonhos despertos ou a realidade que é sonho me acompanhem nessa aventura.

22 – A arte de recontar histórias

•25/02/2010 • Deixe um comentário

O problema do Eterno Retorno é que nunca se sabe qual é a história original, já que as histórias são muitas e tendem sempre a se repetir. Não sei se Nietzsche sabia realmente o que estava dizendo quando deu à humanidade esta ideia, mas é possível que sim. O que ele não devia saber era o problema que daí decorreria.

Trindade, por outro lado, não conhecia Nietzsche. Ele nunca havia se deparado com aquela personagem enigmática e seu bigode incrustado à face. Também nunca ouvira falar no tal do Eterno Retorno, mas nem por isso deixara de ser um de seus mais interessantes casos. Desde a infância ele vivia apaixonado por alguém ou por alguma coisa. Primeiro foram os brinquedos e uma coleguinha do pré. Depois o futebol e um pequeno vazio, pois a coleguinha havia se mudado de cidade. Aí veio o primeiro vídeo-game e a colega que veio da outra turma. Depois novamente o futebol, mas pela televisão – e outra vez um pequeno vazio, pois a colega retornara à outra turma. Então foi o advento do computador e da internet, e a era da liquidez estava instalada: o universo inteiro cabia entre quatro paredes, mas ainda assim ousava desabrochar suas mais belas flores em outro lugar – na sala distante, onde recém chegara a bela garota que exalava simplicidade por onde quer que andasse. E assim foi por alguns anos, até que o carnaval terminasse e a quarta das cinzas soprasse o vento da desilusão. Coração refeito, ainda assim, Trindade partiu em direção à sua nova vida triste e com aquela sensação de que a solidão era sua melhor companhia. Mas bastaria um olhar para que tudo viesse abaixo e ele acendesse o fogo que arde em seu peito e resplandesse nos olhos cor de terra molhada. E tudo se repetiu. E repetiu de novo. E assim foi pelos anos vindouros.

Hoje Trindade encontrou um porto seguro, mas não faz alarde algum sobre isso. Quem o vê nem imagina que ali mora um coração.

21 – A caixa de Pandora

•01/02/2010 • Deixe um comentário

Os caminhos que me foram indicados prometiam tolas esperanças. Ainda assim eu segui, pois não havia nada mais que eu pudesse fazer do que conduzir meu corpo por este espaço vazio. Andar é sempre melhor do que permanecer inerte, onde quer que se esteja. Mas nesse lugar também não havia nada – Pandora foi embora e me deixou esquecido no fundo de uma caixa. Trancado e sem algúrios eminentes, eu estava sozinho com meus pensamentos – e pensar é o pior castigo que me foi concedido. As paredes sufocavam meus ouvidos cada vez mais sensíveis, que por sua vez impossibilitavam o grito que eu prendia entre minhas mãos assustadas, apertadas à boca numa tentativa risível de manter uma gota de tranquilidade. A escuridão fazia com que tudo parecesse uma noite falsa, uma companheira desagradávelmente estúpida. Sem olhos para ver, eu seguia sem saber quem eu era e o que estava fazendo neste mundo. Era uma caverna e eu estava ali. Não sei como cheguei, nem por que, nem quando, nem nada. As resposta ficam sempre mais difíceis quando não se sabe a pergunta certa. Eu me sinto preso, ainda que não veja as correntes que me atam a este lugar, ainda que eu não saiba se o ar que respiro é parte também do grilhão que me condena – e ainda que eu sinta a liberdade como uma força potencial de minha existência. (Pandora, descuidada, abriu a caixa, mas o que saiu foi só veneno. Ela não sabia o que veria, mas sabia que era seu destino abrir aquela caixa). À esperaça, permaneço agarrado até a última das consequências. É possível encontrar a minha liberdade? Acima de tudo, é preciso encontrar um caminho.

 
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