Há tanto tempo que não escrevo.
Houve uma época em que minha única companhia, nas noites escuras e silenciosas da rua onde moro, era a música de Elliott – e as palavras que então rabiscava em meus anseios poéticos e catarses purificadoras. Esse tempo, tão fugaz como uma brisa primaveril, soçobrou nas ondas frias dos invernos de minha alma, que, impossibilitada de verter em líricas palavras as delícias do meu desassossego, conformou-se com o emudecimento.
O tempo urge. Há tempos que não escrevo e nem cogito escrever.
Depois de muitas idas e vindas, sempre no encalço de um verso adormecido no estio de meus dias (e com a grave pergunta de Rilke em meu peito – “Morrerias se não pudesse escrever?”), descobri-me indigno do encanto das musas. Silenciei meus versos, minhas mãos, meus anseios. Deixei morrer em mim a pretensão de ser o que se não pode ser – arranquei a ilusão ao peito com a mesma passividade com que a instalei aí. Logo esse silêncio gritou fundo em meu âmago, pois a morte é a condição primordial para que haja a vida – “para nascer, é preciso morrer primeiro”.
Mas há muito tempo não escrevo – e nem consigo escrever.
Meu silêncio ganhou ares de drama; e quanto mais calado, mais difícil sair da idiossincrasia – e tanto mais difícil me aproximar das palavras. Sim, isso tudo também é um pouco de respeito; não posso ser medíocre como os pretensos escritores dessa época, isso não me serve; aliás, atordoa-me. A feiúra é a anti-poesia – e o nosso tempo é o tempo da feiúra. Mas acontece que tenho sido um desses escritores de minha época! Como renegar minha filiação histórica? Como eu saberia que minhas palavras careciam de beleza? Ela me era estranha. Estava escondida e eu não a podia ver. Por Zeus! O que é feito de nós, homens e mulheres de intelecto, que desconhecem a beleza?
Há muito tempo que não escrevo e nem sei se é necessário escrever.
As palavras têm me faltado à boca e às mãos, mas a vida tem sido mais suave – e a afetação de meus textos sombrios e fantasmagóricos se desfaz continuamente. Eu, que era o amante da noite, do vinho e da música de Elliott, eu, que me embriagava com as poesias que sonhara escrever, como poderia me entregar a este ofício taciturno se me faltara a matéria prima de meus textos, se me faltava eu a mim mesmo! À míngua de meus esforços, nutri os vestígios de tudo que ainda guardava em algum canto de minha existência num último esforço de manter viva uma possível esperança – ou o que quer que seja. E vi, no fundo de mim, a falta de uma resposta, ou de uma pergunta. Vi que não poderia escrever. E o silêncio se fez.
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